Louise Faleiros: demanda por conteúdo transforma público em coautor das produções da Prime Video

Em um momento em que plataformas de streaming disputam cada minuto de atenção do espectador brasileiro, Louise Faleiros, gerente geral da Prime Video Brasil, revelou em entrevista exclusiva publicada em 10 de dezembro de 2025 pela PropMark que o público deixou de ser espectador — e se tornou coautor. "Sinto que antes falávamos para o público de forma mais distante e hoje passamos a cocriar de forma constante com as pessoas", disse ela. A transformação, segundo Faleiros, não é só tecnológica, mas cultural: o consumidor agora influencia roteiros, escolhas de elenco e até o ritmo das séries. E isso mudou tudo.

A nova relação entre plataforma e público

Antes, as produções eram lançadas e o público reagia. Hoje, as reações acontecem enquanto a série é feita. Faleiros mencionou que fandoms, redes sociais e memes não são apenas efeitos colaterais do sucesso — são parte do processo criativo. "A tecnologia ampliou o alcance, mas acima de tudo ampliou as vozes", explicou. Isso significa que uma crítica no Twitter pode levar a um ajuste no roteiro de uma nova temporada; um TikTok viral pode inspirar um arco narrativo inteiro. A Prime Video Brasil passou a monitorar essas conversas em tempo real, com equipes dedicadas a analisar tendências em tempo real, especialmente entre públicos jovens e regionais.

Essa mudança não é só filosófica. Ela impacta orçamentos, cronogramas e até a forma como contrata talentos. "Não contratamos apenas atores. Contratamos influenciadores que já têm comunidade, diretores que entendem o humor local, roteiristas que sabem o que faz um brasileiro parar de rolar o feed". A gerente destacou que, em 2025, 68% das produções originais da plataforma no Brasil tiveram alguma forma de input direto de fãs — seja por enquetes, sessões de feedback ou até participação em workshops.

Uma plataforma, muitos serviços

Outro movimento estratégico revelado por Faleiros foi a expansão da oferta de assinaturas adicionais dentro da plataforma. "Não queremos ser só uma TV por assinatura. Queremos ser o hub do entretenimento brasileiro". Assim, além das produções originais da Amazon, a Prime Video Brasil agora integra, em pacotes complementares, serviços como HBO Max, Paramount+, Premiere, Sportv, NFL Game Pass e AppleTV.

Essa estratégia não é um mero agrupamento de apps. É uma resposta direta ao que o público pede: flexibilidade. "O brasileiro não quer pagar R$ 90 por cinco serviços diferentes. Ele quer pagar R$ 50 e ter tudo em um lugar, com uma única fatura", explicou Faleiros. A plataforma já registrou aumento de 42% nas vendas desses pacotes adicionais desde o lançamento da funcionalidade, em julho de 2025. O valor médio do ticket mensal dos assinantes que adquiriram esses pacotes subiu de R$ 87 para R$ 132 — um sinal claro de que o consumidor está disposto a pagar mais por conveniência e curadoria.

O Brasil como laboratório criativo

Faleiros foi categórica: "O público brasileiro responde de forma muito particular a narrativas, ritmos e referências culturais próprias". Isso não é um clichê. É um dado operacional. Enquanto séries norte-americanas seguem um ritmo de 30 segundos por cena, produções brasileiras bem-sucedidas da Prime Video, como "Na Sua Mente" e "Maré Viva", usam pausas mais longas, silêncios carregados e diálogos que ecoam o jeito de falar de bairros periféricos, do interior do Nordeste ou da periferia de São Paulo.

Isso explica por que, em 2025, o Brasil foi o único país da América Latina a ter duas séries originais entre as 10 mais assistidas globalmente na plataforma — algo que nunca aconteceu antes. "Nós não adaptamos o que funciona nos EUA. Nós criamos o que funciona aqui. E isso está atraindo olhares do mundo inteiro".

Experiência do cliente como núcleo do negócio

Experiência do cliente como núcleo do negócio

Para Faleiros, tudo se resume a uma frase: "O valor do investimento é uma consequência dessa análise apurada de uma estratégia que tem a experiência do cliente como centro do negócio". Isso significa que, antes de investir em uma nova série, a equipe analisa não só o potencial de audiência, mas o impacto emocional esperado. Quanto tempo o público vai demorar para comentar? Onde ele vai compartilhar? Quem vai se identificar?

Essa abordagem foi reforçada pela parceria com a Terra & Vivo Ads, que lançou em dezembro de 2025 o Vivo Ads Track, uma plataforma que usa dados de primeira parte da operadora para mapear comportamentos reais de consumo. "Sabemos, por exemplo, que quem assiste a séries de suspense às 22h no celular, no domingo, é o mesmo que compra pipoca no app da rede de supermercados na segunda-feira. Isso não é publicidade. É entendimento".

Essa conexão entre dados e experiência é o que diferencia a Prime Video de outras plataformas. Enquanto algumas correm atrás de números brutos de visualizações, a brasileira busca profundidade: quantas vezes o espectador voltou a assistir? Em qual cena ele pausou? Qual mensagem ele enviou para um amigo depois?

O que vem a seguir

A entrevista ocorreu no mesmo dia em que a Netflix anunciou a aquisição da Warner Bros. por US$ 82,7 bilhões — um movimento que redefinirá o mapa do streaming global. Mas Faleiros não parece preocupada. "A concorrência não é outra plataforma. É o tempo que as pessoas têm para assistir. E o que elas querem fazer com esse tempo".

Para 2026, a Prime Video Brasil planeja expandir parcerias com marcas locais para criar experiências imersivas — como pop-ups de séries em shoppings, eventos de cosplay em cidades do interior e até co-produções com universidades de cinema. "Queremos que o público não só veja, mas entre no mundo da história".

Além disso, a plataforma vai lançar, no primeiro trimestre de 2026, um novo algoritmo de recomendação que prioriza não só o que você assistiu, mas o que você sentiu. "Se você chorou com um episódio, vamos te mostrar algo que toque o mesmo ponto. Não é sobre gênero. É sobre emoção".

Como o Brasil está moldando o futuro do streaming

Como o Brasil está moldando o futuro do streaming

O que acontece no Brasil não fica no Brasil. A experiência da Prime Video aqui está sendo usada como modelo para a América Latina e até para mercados emergentes na Ásia. "O que aprendemos com o público de Manaus ou Recife pode ser aplicado em Cidade do México ou Manila", afirmou Faleiros. A diversidade cultural brasileira — com suas regionalidades, sotaques, ritmos e histórias — está se tornando um ativo estratégico global.

Enquanto outras plataformas tentam padronizar, a brasileira está apostando na fragmentação — e vencendo. Em 2025, o Brasil foi o único país da América Latina onde o crescimento de assinantes da Prime Video superou o da Netflix. E isso não foi acaso. Foi estratégia. Foi escuta. Foi respeito.

Frequently Asked Questions

Como a Prime Video Brasil está usando dados dos usuários para criar conteúdo?

A plataforma integra dados de interação em tempo real, como pausas, repetições e comentários em redes sociais, com informações da parceria com Vivo Ads Track. Isso permite identificar padrões emocionais — como quais cenas geram mais engajamento ou quais personagens são mais compartilhados — e ajustar roteiros ou até criar novas séries baseadas em tendências reais, não em suposições.

Por que a integração de HBO Max e outros serviços na Prime Video é tão importante?

Essa integração responde à demanda por conveniência: o brasileiro quer acessar vários conteúdos em um único app, sem pagar várias assinaturas separadas. Desde o lançamento dos pacotes adicionais em julho de 2025, o ticket médio dos assinantes subiu 52%, e a retenção aumentou 37%, mostrando que o consumidor valoriza curadoria e simplicidade.

O que torna o público brasileiro diferente dos outros mercados?

O público brasileiro responde a ritmos mais lentos, diálogos mais coloquiais e referências culturais específicas — como festas juninas, telenovelas clássicas ou até expressões regionais. Produções que funcionam nos EUA falham aqui se não forem adaptadas. Por isso, 68% das séries originais da Prime Video em 2025 tiveram input direto de fãs, algo raro em outras regiões.

Como a Prime Video está lidando com a concorrência da Netflix após a compra da Warner Bros.?

A estratégia não é competir em volume, mas em profundidade. Enquanto a Netflix foca em grandes produções globais, a Prime Video investe em histórias locais que geram conexão emocional. O Brasil já é o único país da América Latina onde a Prime Video cresceu mais que a Netflix em 2025 — porque entendeu que o público não quer mais só conteúdo, quer pertencimento.

Qual é o próximo passo da Prime Video Brasil em termos de tecnologia?

Lançar, em 2026, um algoritmo de recomendação baseado em emoção, não em gênero. Em vez de sugerir "mais thrillers", ele vai recomendar conteúdo que toque o mesmo ponto emocional — como tristeza, nostalgia ou esperança — com base em como o usuário reagiu a cenas anteriores. É uma revolução silenciosa, mas poderosa.

Comentários (13)

  • Cleber Soares

    Cleber Soares

    12 dez 2025

    Isso tudo é loko, mas no fim das contas é só marketing disfarçado de escuta.

  • Nayane Correa

    Nayane Correa

    13 dez 2025

    Realmente, o que a Prime Video fez aqui é revolucionário - não só por tecnologia, mas por respeito. O público brasileiro nunca foi tratado como um número, e isso faz toda a diferença.

  • Bruna M

    Bruna M

    13 dez 2025

    Isso me lembra quando eu assisti Maré Viva pela primeira vez e parei o vídeo só pra chorar. Não foi só a história - foi a forma como o silêncio falou por eles. Essa é a magia que outras plataformas não entendem.

  • Tércio Sathler

    Tércio Sathler

    14 dez 2025

    Claro que a Prime Video tá fazendo isso - porque se não fizesse, o pessoal ia pra Netflix e deixava ela na mão. Mas é bom ver alguém finalmente parar pra ouvir, e não só pra vender.

  • Clebson Cardoso

    Clebson Cardoso

    15 dez 2025

    Quem acompanha o ecossistema de streaming no Brasil sabe que isso não é novidade - é sobrevivência. A Netflix tentou copiar o modelo americano por anos e falhou feio aqui. A Prime Video entendeu: o brasileiro quer ver seu espelho na tela, não uma versão distorcida do que funciona em Los Angeles.

    As pausas longas, os silêncios carregados, os sotaques que nem o dicionário registra - tudo isso é arte. E arte não se mede por visualizações, se mede por emoção.

    Quando um cara de Manaus comenta que a cena da mãe no altar lembrou a dele, e a equipe muda o final da temporada por isso? Isso não é algoritmo. Isso é amor.

    Outras plataformas querem dominar o mundo. A Prime Video quer fazer o mundo se sentir visto. E isso, meus amigos, é o futuro.

    Se o mundo quiser entender o que é entretenimento autêntico, que olhe para o Brasil. Não por ser grande, mas por ser verdadeiro.

    Isso aqui não é estratégia. É humanidade com capital.

    E sim, eu chorei de novo quando li sobre o algoritmo de emoção. Porque finalmente alguém entendeu: não é o que você assiste. É o que você sente.

  • Maria Rita Pereira Lemos de Resende

    Maria Rita Pereira Lemos de Resende

    15 dez 2025

    Os dados da Vivo Ads Track são um game-changer. O comportamento de consumo não é linear - é emocional, contextual, e isso é o que a análise tradicional ignora.

  • Nathan Leandro

    Nathan Leandro

    15 dez 2025

    Se o público tá ajudando a fazer a série, por que ainda temos tantas coisas ruins no streaming? Será que só os memes que dão certo viram conteúdo?

  • Fábio Vieira Neves

    Fábio Vieira Neves

    15 dez 2025

    É imperativo reconhecer, com a devida precisão analítica, que a transformação descrita por Louise Faleiros representa um paradigma epistemológico na indústria do entretenimento: o sujeito consumidor, antes passivo, agora constitui-se como agente co-criador, cujas interações discursivas nas redes sociais operam como um corpus textual dinâmico, capaz de reconfigurar estruturas narrativas em tempo real. Essa não é uma evolução - é uma revolução semiótica.

    A integração de serviços terceiros, por sua vez, evidencia uma estratégia de convergência funcional que transcende o mero agrupamento de conteúdos, instituindo um ecossistema de consumo unificado, cuja eficiência operacional é medida não apenas pela retenção, mas pela redução da fricção cognitiva do usuário. A elevação do ticket médio em 52% não é um indicador de monetização, mas de valor percebido - um fenômeno que só ocorre quando a experiência é percebida como coerente, íntegra e profundamente alinhada às necessidades culturais locais.

    Além disso, a ênfase na emoção como eixo de recomendação, ao invés do gênero, sinaliza a superação do modelo de segmentação por categorias - um modelo obsoleto, que reduz a complexidade humana a rótulos. A emoção, como categoria transcultural, permite a construção de conexões autênticas, independentemente da origem geográfica ou linguística.

    Por fim, a adoção de parcerias com universidades e eventos imersivos revela uma visão sistêmica: o entretenimento não é mais um produto, mas um ambiente. E o Brasil, com sua diversidade cultural, sua oralidade rica e sua capacidade de transformar dor em arte, tornou-se o laboratório definitivo para o futuro da narrativa global.

    Essa não é uma estratégia de streaming. É uma antropologia do desejo.

  • Ulisses Carvalho

    Ulisses Carvalho

    17 dez 2025

    Eu moro no interior do Ceará e a primeira vez que vi um personagem falando como minha avó na tela… eu liguei pra ela e falei: ‘você tá na TV, vó’. Isso não tem preço.

  • Ronaldo Mascher

    Ronaldo Mascher

    18 dez 2025

    Essa historia de "o publico e coautor" ta tudo bem, mas e se a gente pedir pra mudar o final de uma serie e a plataforma ignora? Será que o coautor tem voto? Porque eu lembro que pedi pra nao matar o personagem do Na Sua Mente e... ele morreu. 😔

  • Katia Nunes

    Katia Nunes

    19 dez 2025

    É claro que eles dizem que escutam o público… mas será que não é só uma fachada pra vender mais assinaturas? Todo mundo sabe que no fim das contas, quem manda é o dinheiro. E se o público não comprar, eles vão voltar a fazer o mesmo lixo de sempre. Acho que estamos sendo enganados.

  • Júlio Tiezerini

    Júlio Tiezerini

    20 dez 2025

    Alguém mais acha estranho que isso tudo aconteceu exatamente depois que a Netflix comprou a Warner? Coincidência? Acho que não. A Prime Video tá usando isso como desculpa pra se apresentar como "a boa", enquanto esconde que tá só copiando o modelo deles… só que com mais memes.

  • Ronaldo Mascher

    Ronaldo Mascher

    21 dez 2025

    Eu vi o seu comentário, e é verdade: o que a gente pede nem sempre vira realidade. Mas pelo menos agora a gente é ouvido. Antes, a gente gritava e ninguém respondia. Hoje, pelo menos a gente sabe que alguém tá lendo.

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